Quando Em Crise Se Preocupe Com O Caixa

Gosto de estórias para crianças. Sim eu sei, todo mundo gosta ou já gostou, mas no meu caso não se trata de saudosismo.

É interessante ver como a estrutura narrativa e a montagem dos personagens que fascinam os guris, segue uma linha absolutamente “madura” de conceitos e propósitos. Assisti semana passada, a última das férias dos meus filhos, a uma das versões de Peter Pan. Não é difícil captar a divisão dos papéis e a estrutura básica, onde se travam as lutas do tempo/maturidade X juventude/sonho. O herói Peter está sempre às voltas com muitas aventuras, sem uma em específico, sem um direcionamento focado, enquanto vilão Gancho odeia Peter, por possuir exatamente aquilo que ele, por velho já não pode ter: a juventude e a capacidade de voar (sonhar). Em uma das tramas paralelas, encontramos o único vilão absoluto da estória, um que é capaz de causar medo aos dois protagonistas (Peter/Gancho). O crocodilo Tic Tac, que tendo engolido a mão de gancho, deu ao vilão a sua alcunha.

Tic Tac gostou tanto da mão, que passa o restante da estória a procurar comer o resto de gancho. Para alívio e benefício deste, o crocodilo engoliu também um despertador, cujo tic tac anuncia sua aproximação, dando assim chance para que Gancho sempre escape. O único ser a quem Peter teme realmente é Tic Tac, já que ele odeia Gancho mas não o teme. Vez por outra a utilização de uma história conhecida ou a narrativa sobre um personagem mais forte, pode facilitar o entendimento de situações nas quais nos sentimos um tanto desconfortáveis. Sendo profissional de gestão, com foco em intervenções em empresas em stress, alguns tratam isto como “turnarounds”, é muito normal encontrar com investidores que tem dificuldades em entender qual sua “real” situação. Em grande parte das vezes eles (os investidores) temem uma situação terminal, na qual a empresa poderá não ter continuidade e se preocupam com muitas variáveis sobre o mesmo tema, mas é muito difícil encontrar quem esteja “realmente” focado nas ações necessárias para evitar que isto aconteça.

Assim não é difícil encontrar empresas que estão com dificuldades em cobrir os gastos operacionais, que continuam a investir e projetos que só trarão fluxo de caixa em muitos anos. Também não é difícil encontrar quem acredite que o caminho para a saída seja crescer rapidamente, apesar de não ter noção de como obter o capital de giro para bancar tal crescimento. Em todas empresas há muitos Peters, Ganchos, índios, etc… O problema, meus senhores, é que todos deviam temer mesmo o crocodilo e seu aterrorizante tic tac…tenha_o_tempo_a_seu_favorAs empresas morrem pelo caixa, o mal resultado obtido pela operação é o agente causador, mas não é o elemento finalizador. Empresas sempre morrem pelo caixa, eu pessoalmente não conheço exceções no mundo real.E o caixa é como o Crocodilo Tic Tac, ele permeia todo o enredo, agride os dois protagonistas e é absolutamente intransigente. Neste exemplo, trabalho com duas dimensões de tempo. As que mais me incomodam, por serem menosprezadas, são: Em primeiro plano a demora em tomar o rumo correto. Se navegamos no rumo errado, cada dia a mais navegado, são dois para corrigir no futuro. Esta dimensão muitos entendem. O segundo entendimento relacionado a tempo e caixa é que o tempo da batida do tambor tem que ser diferente. Em mares calmos, o tum tum pode ser até sonolento que tudo vai bem, se não há pressa ou tanta ambição. Mas quando a tempestade é brava, não há como acomodar sonolentas decisões ou um ritmo de trabalho mais acomodado. A reação tem que ser diretamente proporcional à ação ou corremos o risco de ver aquela situação terminal se tornar real e presente.

 

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flavio

Atualmente é CFO & Turnarounder do Grupo Dallas (Avis & Budget Rent a Car) e autor do Blog.

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